Depois de escutar e ler tantas coisas que imprensa brasileira publica , decidi a partir de 2010 emitir minha opinião sobre as matérias que são publicadas.

Se quiser minha opinião sobre matérias referentes a cirurgia de obesidade ou cirurgia para diabetes por favor mande um e-mail para mim, informando a fonte da matéria.

Dr. Caetano Marchesini

 

Sobre a Obesidade e a Diabetes

A matéria é muito feliz ao alertar a população sobre o aumento assustador da obesidade e sua relação direta com o aparecimento do diabetes.

Recomendações como aumento da ingestão de alimentos ricos em fibras, diminuir a quantidade de gorduras e carboidratos, evitar a farinha branca, diminuir o volume das refeições e aumentar a sua frequência, nunca repetir sobremesas mesmo sendo light e fazer atividades físicas, não são qualquer novidade para pacientes com excesso de peso.
Mas se somos bombardeados diariamente com estas informações pela imprensa, médicos, nutricionistas, endocrinologistas, personal trainers, familiares e amigos porque mesmo assim não conseguimos cumprir o dever de casa?

Simples! A obesidade é uma doença multifatorial que não envolve apenas nossa vontade. Sempre brinco com meus pacientes dizendo que se tivesse que escolher a melhor cirurgia para obesidade , esta seria o transplante de cérebro. Mas como a matéria é sobre diabetes vou deixar este assunto para a próxima matéria...

 

Sobre a Cirurgia como Solução

A explicação de como a cirurgia exerce seu efeito sobre a diabetes é simples e objetiva. Creio que dá o recado e passa a informação adequada.

O consenso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica resume muito bem a opinião da maioria dos cirurgiões que estão envolvidos com os protocolos de pesquisa. Temos atualmente bastante substratos científicos para afirmar que as cirurgias já realizadas tem efeito direto sobre a diabetes.

Gostaria de emitir minha opinião sobre o comentário feito a respeito dos efeitos a longo prazo da cirurgia sobre o diabetes e a sua comparação feita com a talidomida a qual acho que foi totalmente equívoca e infeliz.
A primeira pergunta a ser feita é : quantas pacientes morriam (literalmente) de náusea durante a gravidez antes do aparecimento da talidomida? Nenhuma! Agora, quantos pacientes morrem de diabetes, ficam cegos, com insuficiência renal, tem suas pernas amputadas ou infartam ao ano? Milhares!
A diabetes além de ser um problema de saúde pública é um problema sócio-econômico incapacitando e matando milhares de brasileiros ao ano!

Não estou defendendo a realização indiscriminada da cirurgia para a diabetes, mas será que os cirurgiões são tão irrelevantes para os laboratórios? Acho que se fizermos as contas de quantos pacientes serão beneficiados talvez o número não seja tão pequeno!
Recentemente fui convidado para escrever um capítulo de livro sobre o assunto. Estou envolvido com três protocolos de estudo no tema e fiquei espantado ao ver centenas de publicações médicas referentes aos resultados positivos encontrados .

Finalmente gostaria de ressaltar que ciência não é feita só em São Paulo ou Rio de Janeiro.
Atualmente no Brasil existem inúmeros protocolos em andamento para pacientes com índice de massa corpórea inferior à 30(diabéticos magros) nas cidades de Porto Alegre (RS), Curitiba(PR), Cascavel (PR), Ponta Grossa (PR) , Vitória (ES), Natal (RN) e talvez outros que tem sua aprovação junto às suas Comissões de Ética e Pesquisa .

 

Sobre o Futuro da Cirurgia

Vamos tentar responder as perguntas colocadas...

1. O efeito da cirurgia dura para sempre?

Realmente não sabemos, mas vários estudos demonstram que um grande número de pacientes submetidos a cirurgia de obesidade permaneceram com seus índices glicêmicos normais. Outras publicações que estão para sair este ano também mostram o mesmo com pacientes sem obesidade mórbida.
A pergunta correta talvez seja: Se eu conseguir dar ao meu paciente qualidade de vida por 5 ou 10 anos a mais do que ele teria com o diabetes, devo oferecer a ele a opção da cirurgia como tratamento para sua doença?

2. A cirurgia é mais vantajosa que o tratamento clínico?

A resposta já foi dada em muitos trabalhos clínicos bem conhecidos na Europa e Estados Unidos. A conclusão destes estudos é que não importa qual o tipo de tratamento clínico que você ofereça ao seu paciente, a doença vai cumprir sua evolução natural. São estudos publicados por entidades respeitadas no meio científico com acompanhamentos de até 12 anos destes pacientes tratados [*] .
Enquanto não aparecer um medicamento que realmente tenha impacto sobre a diabetes como a cirurgia acredito que em breve será mais que comprovada a eficiência da cirurgia. Mas quais são as consequências das cirurgias atualmente propostas? Nós cirurgiões bariátricos já sabemos por larga experiência o que acontece com as operações aceitas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica . A necessidade de reposição de vitaminas e sais mineirais são imprescindíveis em nosso pacientes obesos e provavelmente serão necessários para os pacientes magros. O risco atual de morrer em uma cirurgia bariátrica é de 0,3 a 0,6% (traduzindo: de 3 a 6 pessoas em mil podem morrer da cirurgia). E qual o risco de um obeso diabético morrer? A literatura médica também é farta neste assunto: 3 a 5% (10 vezes maior)

Repito: Minha opinião não é de fazer a cirurgia de maneira indiscriminada e irresponsável, mas será que não estamos cometendo um erro grave privando as pessoas de ter saúde?

Pense...

[*] Os principais estudos são :UK Prospective Diabetes Study Group. Lancet . 1998; 352:837-853 e The ADVANCE Collaborative Group. N Engl J Med 2008; 358:2560-2572